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Análises mostram que o desmatamento histórico ocorrido no Mato Grosso foi reduzido em cinco vezes após a moratória; pesquisadores alertam que é preciso estabelecer mecanismos mais avançados para monitoramento agrícola e implantação de novas ações de controle que ajudem na produção sustentável

São Paulo, 01 de junho – Mapeamento realizado pela Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, em parceria com a Embrapa, comprova que a moratória da soja teve contribuição decisiva na redução do desflorestamento no estado de Mato Grosso. Pesquisas com dados mapeados de 2001 a 2014 mostraram que houve uma queda de 2,4 vezes no cultivo da cultura em áreas recém-desflorestadas. A ocupação média caiu de 9,4% para 3,9% num período analisado de cinco anos antes e depois da moratória.

Os dados são apresentados no artigo Soy moratorium impacts on soybean and deforestation dynamics in Mato Grosso, Brazil (Impactos da moratória da soja sobre a dinâmica da soja e do desmatamento em Mato Grosso, Brasil), publicado no periódico Plos One. A autoria é dos pesquisadores da Universidade de Kansas Jude H. Kastens, J. Christopher Brown e Christopher R. Bishop, em parceria com Alexandre Camargo Coutinho e Júlio César Dalla Mora Esquerdo, da Embrapa Informática Agropecuária.

“Com base em nossa análise, encontramos um declínio muito mais forte do desmatamento coincidente com a moratória da soja do que outros estudos relataram”, disse Kastens ao boletim KU Today, da Universidade de Kansas. “A moratória da soja tem sido subestimada em algumas pesquisas como um fator na redução do desmatamento. Nossa análise do mesmo conjunto de dados de desmatamento usado por outros estudos revelou que um grande declínio no desmatamento ocorreu imediatamente após a moratória entrar em vigor. O desmatamento ainda está acontecendo, mas desacelerou, e menos desta área está sendo usada para a produção de soja”, ressaltou o pesquisador.

As análises mostram que o desmatamento histórico ocorrido em Mato Grosso foi reduzido em cinco vezes após a moratória. A pesquisa avaliou a dinâmica da atividade produtiva na região de 2001 a 2014 e com os mapas gerados permitiu identificar onde ocorreu a intensificação da agricultura. “Está se produzindo mais, mesmo sem grandes ganhos de área plantada. Os trabalhos intensivos em coleta de dados de campo, assim como os mapeamentos produzidos, demonstram esse fato numérica e espacialmente”, explica o pesquisador Júlio Esquerdo.

De acordo com o Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 2001 e 2006, a taxa média anual de desflorestamento do estado foi de 1.028.779 hectares ao ano. Com o estabelecimento da moratória em 2006, restringindo a comercialização da soja a áreas não desflorestadas, esse número passou para 180.694 hectares por ano. Segundo o artigo, no período analisado de cinco anos antes da moratória, cerca de 14% das áreas desmatadas eram ocupadas por soja. Após a proibição, o índice caiu para 5,6%.

O estudo mapeou a agricultura anual no estado, composta principalmente por soja, milho e algodão, com base em imagens de satélite e técnicas de sensoriamento remoto. Além dos dados de campo coletados em cerca de três mil pontos amostrais, em várias viagens feita pela equipe, dados de soja e algodão foram comparados com os divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Pela primeira vez, esse tipo de análise foi promovida com mapeamentos específicos da cultura da soja e os resultados mostraram um impacto maior da moratória da soja na redução dos desflorestamentos, em comparação a estudos anteriores”, conta o pesquisador Alexandre Coutinho. Ele ainda destaca a grande repercussão que o trabalho obteve em canais de divulgação no exterior, especialmente por causa do compartilhamento das informações. Tanto os mapas quanto os dados citados no artigo científico estão disponíveis na internet com o intuito de contribuir para o trabalho de gestores e formuladores de políticas públicas no País.

Intensificação agropecuária
Com o amplo mapeamento no estado de Mato Grosso, a equipe identificou que, especialmente após a moratória da soja, houve uma forte intensificação agrícola na região, ou seja, os produtores passaram a produzir mais graças à adoção de tecnologia. A produção de algodão, milho e soja, que era de 12,8 milhões de toneladas em 2001, passou para 46,9 milhões em 2014, de acordo com o IBGE.

Entretanto, esse incremento na produção não ampliou as áreas plantadas na mesma proporção. O que houve foi uma alteração na dinâmica agrícola, com mais plantios sendo feitos em sistema de safra-safrinha, ou seja, com duas culturas produzidas no mesmo ano-safra. Para se ter uma ideia dessa mudança, em 2001 havia 3.289 quilômetros quadrados (km2) com plantio de soja na safra sucedida por plantios de safrinha, como milho, algodão e sorgo. Já em 2014, esse número passou para 43.843 km2, o que representou um aumento de 13 vezes. O algodão foi uma das culturas com maior expansão de área plantada durante a safrinha após a soja, passando de 110 km2 em 2001 para 5.383 km2 em 2014, enquanto o plantio de algodão durante a safra principal reduziu-se de 3.013 km2 para 466 km2 no mesmo período.

Outro aspecto que merece destaque é o desenvolvimento de cultivares de soja de ciclo mais curto como uma das medidas de controle da ferrugem-asiática, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizie, identificada pela primeira vez no Brasil em 2001 e que provocou grandes estragos na agricultura brasileira. “As variedades de soja precoces possibilitaram sua integração com a cultura do algodão em um mesmo ano-safra. São commodities agrícolas importantes e extremamente tecnificadas, que tiveram grande aumento de produtividade no estado”, declara Alexandre Coutinho.

A expansão das áreas dessas culturas não ocorreu de forma significativa em áreas florestais. Contudo, há indícios de que o plantio de soja esteja migrando para outros locais, com impacto em outros biomas, como é o caso da região do Matopiba, área abrangente de parte dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e nova fronteira agrícola no bioma Cerrado, na qual a agricultura é baseada em tecnologias modernas de alta produtividade. Por isso, os pesquisadores alertam que é preciso estabelecer mecanismos mais avançados para o monitoramento agrícola, incluindo a rastreabilidade de grãos, além da implantação de novas ações de controle que ajudem na produção sustentável.

A identificação de processos de expansão ou intensificação agrícola é o principal objetivo do convênio de cooperação técnica que a Embrapa possui com a Universidade de Kansas há quase dez anos. Como resultados desse acordo, as equipes desenvolveram várias metodologias de coleta de dados em campo para o mapeamento de culturas agrícolas, a partir de diversos projetos de pesquisa, como o TerraClass Amazônia, o Mapagri (Metodologia de mapeamento da atividade agrícola no Brasil) e o Intagro (Intensificação agropecuária e commodities agrícolas no Brasil: territorialidade, sustentabilidade e competitividade).

Moratória
A moratória da soja é um compromisso criado em 2006 entre representantes da indústria, sociedade civil e o governo brasileiro. Esse instrumento proíbe o comércio, a aquisição e o financiamento de grãos produzidos em áreas desmatadas de maneira ilegal no bioma Amazônia, além de áreas embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e em propriedades que constem em lista de trabalho análogo ao escravo do Ministério do Trabalho e Previdência Social. Pela moratória, a Associação Brasileira das Indústrias dos Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec), que compram grãos no Brasil, se comprometem a não investir em produtores de soja que usam área da Floresta Amazônica da Amazônia Legal.

Fonte: EcoDebate

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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