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Rede está presente nas principais cidades frutícolas do Estado e além de reduzir infestações, possibilitou a diminuição no uso de inseticidas

São Paulo, 29 de janeiro – Uma parceria entre a Emater do Rio Grande do Sul – Ascar e a Embrapa, com o apoio das secretarias municipais de agricultura de Bento Gonçalves, Farroupilha e Pinto Bandeira possibilitou que os produtores e técnicos ganhassem o Sistema de Alerta Mosca-das-Frutas, um serviço de monitoramento constante que avisa o produtor com antecedência sobre a presença do inseto na região.

A rede de monitoramento nos principais municípios produtores já está atuando na safra 2017-2018, ao acompanhar a presença da mosca-das-frutas (Anastrepha fraterculus), principal praga que ataca a cultura. Os produtores recebem boletins semanais com informações sobre insetos coletados em armadilhas e orientações a produtores e técnicos para lidar com a situação encontrada.

“Detectar a chegada do inseto com rapidez traz mais segurança a toda a cadeia produtiva, pois evita a tradicional aplicação de produtos por calendário, garantindo a produção de frutas de qualidade”, declara o pesquisador Marcos Botton.

Trata-se da ampliação de um sistema de monitoramento que é utilizado há sete anos na região de Pelotas (RS), onde são produzidas 95% das frutas destinadas à indústria de conservas. Agora, o programa foi expandido e leva tecnologias de manejo para três municípios da Serra Gaúcha: Bento Gonçalves, Farroupilha e Pinto Bandeira, responsáveis por 80% do pêssego produzido na Serra. A cultura da fruta na região ocupa cerca de três mil hectares e, além de abastecer o mercado gaúcho, é vendido para Paraná, São Paulo e Nordeste.

Praga pode comprometer produção

A mosca-da-frutas ataca todas as espécies de frutíferas cultivadas na Serra Gaúcha, sendo a principal praga das frutas de caroço, como ameixa e pêssego, e pode levar o produtor a perder toda a sua produção se não for controlada. Os danos ocorrem porque as fêmeas depositam seus ovos nos frutos, permitindo a entrada de microrganismos e, quando a larva se desenvolve, provocando o apodrecimento do fruto.

Durante a safra que está sendo acompanhada, a ocorrência da mosca-das-frutas foi baixa, não sendo registradas infestações precoces nem picos populacionais significativos. “O sistema foi uma ferramenta fundamental para o controle da mosca, auxiliando no manejo correto, apoiando os produtores nas decisões e dando uma dimensão da infestação real”, avalia Ênio Todeschini, assistente técnico regional da Emater.

Monitoramento reduz incidência e inseticidas

Todeschini comenta que, devido ao inverno mais ameno, a expectativa era ter grandes infestações da praga, o que não ocorreu. Com o acompanhamento da situação no campo através de armadilhas, foi possível reduzir a aplicação de inseticidas para a mosca. Isso permitiu que fossem realizadas aplicações para o controle de outra praga, a grafolita, que ataca as ponteiras e provoca o murchamento e secamento dos galhos, danificando a produção. “Ao fim da safra, haverá um melhor dimensionamento dos ganhos com o sistema, mas nossa expectativa é investir ainda mais na próxima safra, ampliando o número de armadilhas e os municípios envolvidos”, prevê.

Alexandre de Oliveira Frozza, agrônomo da Emater, acompanhou propriedades em Bento Gonçalves e foi o principal porta-voz do Sistema de Alerta por meio de programas em uma rádio local. Em sua percepção, o acompanhamento da flutuação populacional da mosca-das-frutas nos pomares de pêssego e ameixa possibilitou que as recomendações para o controle da praga não se limitassem unicamente às pulverizações de inseticidas. A divulgação aos produtores envolveu recomendações técnicas como a isca tóxica e a captura massal, além de dicas para reduzir focos de infestação, como eliminar pomares abandonados e locais de descarte de frutos.

Evandro Faguerazzi, um dos produtores parceiros do projeto em Bento Gonçalves, produz e comercializa pêssego e ameixa junto com sua família. Ele já fazia o monitoramento e ficou entusiasmado em participar da iniciativa a fim de reduzir o número de aplicações de produtos químicos na lavoura. “É muito interessante esse apoio para controlar a mosca, pois, muitas vezes, falta tempo para nós, pequenos produtores, fazermos esse monitoramento da forma correta, e esse projeto ajudou a decidir sobre a aplicação do produto na hora certa”, comenta.

Divulgações

“As principais vantagens do monitoramento são evitar perdas provocadas pela mosca-das-frutas, utilizar o mínimo de produtos na plantação e fazer manejo mais sustentável”, pontua Botton.  O pesquisador da Embrapa comenta que o sistema de alerta ajuda na introdução de novas tecnologias, como é o caso do emprego de iscas tóxicas. A prática deve ser ampliada nos próximos anos, visto que, em baixas infestações, pode evitar a pulverização de inseticidas em cobertura sem ocorrer perdas na produção.

A estratégia de produzir e divulgar semanalmente o boletim, relatando a situação da população de moscas, indicando as ações de controle bem como outras orientações relacionadas ao manejo da cultura, abriu um canal de comunicação com o setor. “Tanto o envio por WhatsApp, como na página do Sistema e o próprio programa de rádio são esperados e acompanhados semanalmente [pelos produtores]”, comenta.

Ao todo, já foram publicados mais de 20 boletins e realizados mais de 22 programas de rádio. Liderado pelo jornalista Felipe Machado, a edição sempre traz informações do Boletim com uma entrevista com técnicos envolvidos. Segundo o jornalista, a repercussão foi muito boa e muitos agricultores já entraram em contato para mais informações. “Diante da divulgação na Rádio, produtores procuravam a emissora em busca de mais esclarecimentos, e, consequentemente, encaminhávamos para a Embrapa e Emater. Ou seja, o retorno foi imediato e conseguimos cumprir nosso papel, prestar serviço de relevância aos ouvintes e agricultores da região com apoio dos técnicos envolvidos”, avaliou.

O boletim segue circulando até finalizar a colheita das cultivares tardias que são mais suscetíveis ao ataque do inseto. Para a próxima safra, a equipe planeja incluir no sistema de monitoramento também outra praga — a mariposa grafolita — e ampliar a participação dos produtores, que deverão ser capacitados e passar a fazer o monitoramento semanal, possibilitando assim o aumento da rede de armadilhas. “Nosso objetivo é obter informação sobre o comportamento da praga ao longo da safra, e dessa forma entender o comportamento da mosca na região, buscando métodos mais sustentáveis para a produção de frutas”, pontuou Botton.

Evoluções do Programa

Há 30 anos, Volnei Mendez Natali vive na Colônia Santa Maria do Sul, na região de Pelotas. Há alguns anos o produtor vem se adaptando a outro cenário: a retirada de produtos fitossanitários, especificamente para cultura do pessegueiro, da grade de licenciados pelo Ministério da Agricultura, adoção de novos hábitos e estratégias de prevenção e controle de doenças e pragas nos pomares e oscilações climáticas prejudiciais ao desenvolvimento da cultura. Uma das formas de Natali enfrentar essas mudanças no manejo da cultura foi participar do Sistema de Alerta.

O presidente do Sindocopel, Paulo Crochemore, diz que o Sistema representa um diferencial para a indústria do pêssego, especialmente quando foram retirados os produtos químicos para uso pelo setor produtivo. “É uma ferramenta que auxiliou na recuperação das perdas em pomares e a melhorar a qualidade do fruto, pois havia muito pêssego contaminado que chegava à indústria e, por isso, muito desperdício”, lembra.

Crochemore diz que ainda há muito a ser melhorado, mas as mudanças já realizadas conseguiram fazer com que os produtores de pêssego atendessem as exigências de regulamentação de uso de produtos químicos, tendo índices muito baixos de frutos bichados. Ele diz que o programa também propiciou que os produtores se qualificassem em outras áreas da produção como a adubação do solo, adoção do sistema de irrigação, controle de doenças e uso de mudas de maior qualidade.  “A produtividade aumentou, mesmo enfrentando questões climáticas, passando de uma produção entre sete a dez toneladas por hectare para 20 ton/ha”, conta.

Já o presidente da Associação dos Produtores de Pêssegos de Pelotas (APPRP), o produtor Marcos Schiller diz que o envolvimento de um grande número de produtores do setor permitiu conduzir um trabalho de maneira mais limpa. “Começamos a observar e a identificar como a mosca entrava no pomar e como ela se comportava, daí aprendemos a adaptar nossa forma de manejo e a fazer outras indicadas pelo Programa”, comenta Schiller. Segundo ele, há propriedades que, atualmente, conseguem fazer 100% do controle do inseto-praga com o monitoramento e uso da isca tóxica, não utilizando mais as aplicações de cobertura de produtos químicos nos pomares. “Muitos produtores conhecem o sistema e, a partir de sua experiência, outros começaram a participar do programa, utilizar as estratégias para controle da mosca-das-frutas e práticas de manejo preventivas para tratar outras doenças e fungos, que comprometem a qualidade da produção”, enfatiza.

Fonte: Embrapa

Foto: Paulo Lanzetta / Embrapa

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